Parecer descritivo pro conselho de classe com IA (sem rótulo)
Suas anotações curtas viram parecer por habilidade em três comandos. No fim, você tem 32 pareceres objetivos, sem "aluno disperso" — e lidos um a um, em voz alta, por você.
Neste texto
Quarta, 22h10. Conselho de classe do 3º bimestre marcado pra quinta, 14h, e eu com o caderno de anotações do 8º ano B aberto na mesa. Trinta e dois alunos. Ao lado do nome de cada um, o que eu anotei ao longo do bimestre: “melhorou parágrafo”, “não entrega”, “lê bem, escreve pouco”, “faltou 3x”. Coisa de duas, três palavras. E a coordenação queria, pra cada um, um parecer descritivo de cinco a oito linhas.
Gente, olha só o que eu escrevia às 23h, na décima quinta ficha: “Aluno disperso, precisa de mais atenção nas atividades.” Isso não é parecer. Isso é rótulo. E rótulo, no conselho, vira sentença: o professor de Matemática lê “disperso” e concorda, o de História lê e concorda, e o menino sai da reunião com um adjetivo colado que ninguém tira mais. Eu sabia disso. Vinte e seis anos de sala. E fazia mesmo assim, porque à meia-noite a gente escreve o que sai.
Naquela quarta eu terminei os 32 às 23h40, sem um rótulo. E, antes de imprimir, li cada um em voz alta. Explico por quê.
Neste texto você vai sair sabendo: transformar anotações de duas palavras em parecer por habilidade; pedir que o parecer descreva o que o aluno faz, não o que o aluno “é”; usar iniciais em vez de nome, sempre; e fazer a leitura final que separa um parecer decente de um parecer que machuca.
O que você precisa
- Conta grátis no ChatGPT ou no Gemini. Faço no notebook porque gosto de ver as fichas lado a lado, mas o celular resolve.
- Suas anotações do bimestre, por aluno. Curtas serve. Se não tem, três frases de memória por aluno já dão um parecer honesto.
- Os códigos das habilidades que você trabalhou no bimestre, tipo
[EF89LP04]. Confira o enunciado no site do MEC; não deixe a IA inventar. - O modelo de parecer da sua escola, se tiver (número de linhas, o que a coordenação pede).
- Uma hora e meia pra 32 alunos, com a leitura em voz alta no fim.
Passo 1 — Dê as regras do parecer antes de dar qualquer aluno
Primeira mensagem sem nenhum aluno. Só as regras. Se você já colar anotação junto, a IA responde com o parecer antes de entender o que você não quer nele.
Vou te mandar anotações curtas sobre alunos do [8º ano] em [Língua Portuguesa], identificados só por iniciais. Para cada um, escreva um parecer descritivo de [5 a 8] linhas para o conselho de classe, organizado pelas habilidades que trabalhei no bimestre: [EF89LP04 — leitura de texto argumentativo; EF69LP07 — produção de texto; EF08LP04 — norma culta]. Regras: descreva o que o aluno faz ou ainda não faz em cada habilidade, com verbo de ação. Nunca use adjetivo sobre a pessoa: nada de “disperso”, “preguiçoso”, “esforçado”, “inteligente”, “fraco”. Nada de comparação com a turma. Termine com uma frase de encaminhamento: o que eu vou fazer no próximo bimestre pra ele avançar. Se a anotação não fala de uma habilidade, escreva “sem registro neste bimestre”, não invente. Responda só “pronto”.
A parte mais importante é “se a anotação não fala, não invente”. Sem isso, a IA preenche o buraco. Se eu anotei só “lê bem”, ela escreve que o aluno “produz textos com coesão” — e ele nem entregou texto. Parecer com informação inventada é pior que parecer curto.
Na primeira rodada eu não coloquei “nada de esforçado”. Achei que elogio não fazia mal. Aí li o parecer da A.L.: “aluna esforçada, apesar das dificuldades”. Apesar. Uma palavra e o conselho inteiro já entende que ela não vai conseguir. Elogio de pessoa também é rótulo, só que com laço de fita. Fica o que ela faz: “lê o texto argumentativo e identifica a tese; ainda não escreve o próprio argumento sem apoio”.
E as iniciais: M.S., A.L., K.R. Nunca nome. Na minha lista de papel, M.S. é uma pessoa. Na IA, é um par de letras. A coordenação da escola particular já perguntou se eu usava IA nos pareceres; mostrei a conversa, com as iniciais, e ela aprovou. Mostrar a conversa só foi possível porque não tinha nome nela.
Passo 2 — Mande as anotações de cinco em cinco e leia o que voltou
Agora os alunos. Cinco por mensagem funciona; mais que isso, ela começa a misturar. Cole as anotações do jeito que estão, telegráficas mesmo. Não gaste tempo bonitando anotação — o parecer é que tem que ficar bonito.
M.S.: [lê bem, escreve pouco, entregou 2 de 4 textos, parágrafo melhorou, faltou 3x]. A.L.: [identifica tese, argumento ainda com apoio, ortografia ok, participa oral]. K.R.: [não entrega, some na aula, quando escreve tem ideia boa, conversa muito]. [mais dois alunos].
Olha o que saiu pro K.R., que eu anotei como “some na aula”: “Em produção de texto, entregou 1 das 4 propostas; no texto entregue, apresenta ideia própria e a sustenta com um exemplo. Em leitura, sem registro neste bimestre. Encaminhamento: propostas de texto mais curtas, entregues em sala, com combinado individual de prazo.” Isso é o que eu queria dizer sobre o K.R. e não conseguia às 23h.
Ela errou na primeira leva: transformou “conversa muito” em “apresenta dificuldade de concentração”. Não pedi diagnóstico. Anotei conversa; parecer é sobre Português. Mandei “tire qualquer frase que pareça avaliação de comportamento ou de saúde; se eu anotei conversa, é porque quero ver como isso aparece no texto dele, não um laudo”. Refez. Hoje essa frase já está no primeiro comando.
Aqui vale a mesma regra do feedback de redação: a IA sugere o texto, eu decido. Em cada parecer eu mudo pelo menos uma frase. Às vezes porque ela errou, muitas vezes porque eu sei uma coisa que não anotei.
Passo 3 — Leia cada um em voz alta, como se a mãe estivesse na frente
Esse passo é meu, não da máquina. Antes de imprimir, eu leio os 32 pareceres em voz alta, um por um, baixinho, na cozinha. Levo uns 20 minutos. E leio imaginando duas pessoas: a mãe do aluno, e o aluno daqui a dez anos, achando aquele papel numa gaveta.
Se alguma frase me faz baixar a voz, eu troco. “Não acompanha a turma” me fez baixar a voz. Virou “lê o texto com apoio da professora e responde às perguntas de localização; ainda não responde às de inferência”.
Releia o parecer de [M.S.] como se fosse a mãe dele, ouvindo a professora ler em voz alta na reunião. Alguma frase soa como julgamento da pessoa, e não descrição do trabalho? Aponte e reescreva só essa frase.
Foi a leitura em voz alta que me salvou de mandar “ainda não demonstra interesse” pro conselho. No papel parecia neutro. Falado, era acusação. Interesse é coisa que eu não meço; entrega de texto, eu meço. Esse comando pega uma parte; a minha voz pega o resto.
Na escola pública de manhã, onde a impressora vive sem toner e a internet não abre, faço tudo no celular na noite anterior e levo os pareceres no WhatsApp pra mim mesma. Na hora do conselho, leio da tela. Já fiz isso mais de uma vez e ninguém reclamou.
O resultado
Quinta, 14h, conselho do 8º ano B. Trinta e dois pareceres, cada um com três habilidades, um encaminhamento e nenhum adjetivo. A professora de Matemática pediu o meu comando. A coordenadora disse que era a primeira vez que o parecer de Português dizia o que o aluno fazia, em vez de como ele era. Fui dormir à meia-noite na quarta, não às duas.
26 anos de sala de aula, rede pública de manhã e particular à tarde. Nove turmas. Personagem editorial do forfun.gg — saiba como funciona.
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